24 Heures Immobilier: a neuroarquitetura, uma aliada da inclusão
Repensar espaços de trabalho, salas de espera ou salas de aula para que todos se sintam melhor neles: esse é o papel de uma nova disciplina situada entre a arquitetura e a neurociência.
Patrizia Rodio
Publicado: 06.03.2024, 08h28
A neuroarquitetura busca compreender como o ambiente construído afeta nossas emoções, nossos comportamentos e nossos pensamentos. – Renata Koglin
Existe um termo, neuroarquitetura, que aos poucos vem ganhando espaço junto ao grande público e aos profissionais. Pouco conhecida na Suíça, a disciplina une arquitetura e neurociência.
Ela nasceu com um biólogo e pesquisador norte-americano, Jonas Salk, que não conseguia mais trabalhar e viajou para Assis, na Itália. Ao voltar, criou a primeira vacina contra a poliomielite. Convencido de que foi o desenho da cidade, propício à reflexão e ao surgimento de ideias, que tornou isso possível, ele fundou, com o arquiteto Louis Khan, o Instituto Salk, dedicado à neuroarquitetura.
O objetivo é identificar o que, no ambiente construído, afeta positivamente o nosso cérebro e, portanto, nossas emoções, nossos comportamentos e nossos pensamentos.
Na época, a recepção do conceito entre os profissionais foi bastante reservada. Em 1998, com a descoberta do neurocientista e geneticista norte-americano Fred Cage de que o cérebro continua a produzir neurônios na idade adulta em função de determinados estímulos ambientais, a ideia ressurge. Nos países anglo-saxões, ela passa a fazer parte do vocabulário do design.
Cores, iluminação, acústica
A escolha das cores, a importância da iluminação (natural ou não), a conexão com a natureza, as interações entre as pessoas nos espaços públicos e privados e a acústica são alguns dos elementos em que a neuroarquitetura se apoia.
Renata Koglin os adotou em seu trabalho como arquiteta de interiores. «Elementos como a iluminação ou a cor de um espaço determinam as sensações que temos quando vivenciamos o design. A neuroarquitetura procura entender como o ambiente arquitetônico influencia nossos processos mentais e, consequentemente, nosso comportamento, para aplicar essas descobertas ao projeto e à construção de espaços que melhorem o nosso bem-estar», explica.
O desafio consiste em entender por que certos lugares estimulam ou dificultam determinados estados de espírito e, depois, projetá-los de forma a alcançar um objetivo específico: um escritório menos estressante, um hospital que favoreça a recuperação ou uma escola que estimule o aprendizado», acrescenta.
E o que pensam os outros profissionais da área? «Reconheço ali algumas das teorias antropológicas e psicossociais que li muito e de que gostei bastante», explica o arquiteto e urbanista EPFL-FSU Laurent Guidetti, da Tribu Architecture. Embora reconheça que uma abordagem sensível e psicossocial do espaço é necessária, ele considera que não é preciso um rótulo para isso. «Em matéria de inclusão, precisamos (mais do que de normas ou regras) pensar de outra forma a relação com o outro», avalia.
Necessidades e sensações
Todos nós temos necessidades, percepções e sensações diferentes, afirma Morgane Züger, arquiteta de interiores HES. Levá-las em conta na criação de um projeto é a base da arquitetura e do design de interiores. Mas se, por exemplo, nossos clientes têm necessidades específicas que vão além das nossas competências, trabalhamos em conjunto com outras disciplinas. Os terapeutas ocupacionais, por exemplo, ajudam muito a antecipar as necessidades de usuários com deficiência física. Por isso, entendo perfeitamente que um ou uma especialista em neuroarquitetura possa desempenhar esse papel para usuários neuroatípicos.
Eu me vejo como um espelho que deve refletir a personalidade, as emoções e a história do cliente, destaca o arquiteto de interiores Jorge Cañete, do estúdio Interior Design Philosophy. Minha filosofia defende que, para alcançar o bem-estar em casa, a casa precisa estar em harmonia com quem vive nela. Não pode haver descompasso. As cores, os materiais e as formas devem ser uma expressão emocional, um espelho desse estado. Trabalhamos muito com IA na fase criativa para definir territórios ultrapersonalizados, o mais próximos possível do universo íntimo de cada cliente.
Renata Koglin insiste: «A neuroarquitetura vai além das simples noções de gosto, de cores e de sentimentos pessoais. Ela se apoia em dados científicos. Trata-se, por exemplo, de otimizar a luz natural, a ventilação e o conforto térmico, de escolher materiais com texturas e acabamentos agradáveis e de integrar espaços adaptáveis que atendam a diferentes necessidades e atividades. A incorporação de sistemas construtivos inteligentes e de elementos biofílicos (integração da natureza em um espaço construído) melhora ainda mais as experiências sensoriais dos ocupantes e fortalece os vínculos com a natureza, criando ambientes favoráveis à saúde humana, à felicidade e à produtividade.